segunda-feira, 4 de abril de 2011

Capítulo 2 – Um dia no Shopping

Na terça eu e as meninas combinamos de ir ao shopping após a aula. Pela manhã, na escola tudo correu tranquilamente... pelo menos para mim, já que o professor de matemática não apareceu novamente. Corria um boato nos corredores de que não voltaria tão cedo. Também pudera... aquele barulho infernal da minha sala. Não era a toa que todo mundo reclamava de dor de cabeça. Será que o professor Marcelo seria nosso professor. Eu não conseguia tirá-lo da cabeça.
- Aliiiiiiiiiiiiiine – aquele grito parecia uma alfinetada em meus ouvidos.
Só podia ser a escandalosa da Bruna que acabara de chegar.
- Cadê “las amigas”? perguntou ela, logo após me beijar no rosto.
- A Camila e a Dafne estão retocando a maquiagem. Acho que elas estão pensando que vamos a alguma festa. E...
- Deixa eu adivinhar – cortou ela. A Edilaine está fazendo um lanchinho.
Eu não pude deixar de rir. A Di, como nós a chamávamos carinhosamente, tinha um problema sério de algo que eu não sei o nome. Ela simplesmente não para de comer um só instante. Houve uma época em que o pessoal a chamava de Scoobi-Doo... a Dafne até tinha uma certa culpa, já que as duas não se desgrudavam... mas realmente ela não pára de comer.
- Você perdeu a aula de hoje, o professor de matemática não veio de novo – eu disse.
- Estou com problemas lá em casa. Sabe como é, né... meus pais estão se separando e eu fico no meio desse rolo. Sorte que o Caique está me dando um apoio.
O Caique era o pseudo-namorado da Bruna. Ela era a mais velha da turma e ninguém entendia o que ela fazia com aquele pirralho de 14 anos, do nono ano! Ela morava no bairro mais desejado da cidade. A separação seria uma grande mudança para ela, já que ela era muito apegada aos pais. Havia quem dissesse que o namorico dela com o Caique era o primeiro sinal de ela estava perdendo o controle das coisas. Por mais que ela tentasse chamar a atenção do pai e da mãe namorando aquele pivete, eles tinham (os problemas deles) assuntos mais urgentes para tratar.
Logo as meninas chegaram, primeiro a Di, e depois a Camila e a Dafne. Não demorou e nossa aventura ao shopping estava começando.

O único Shopping da cidade ficava no centro e não era muito grande, mas tinha tudo que garotas da nossa idade precisavam. Logo que chegamos fomos para a praça de alimentação. As meninas estavam famintas – inclusive a Edileine! Enquanto elas enfrentavam a fila do Mac Donalds, eu sentei-me à mesa e abri o caderno de matemática. Imaginava como seria bom se eu conseguisse resolver pelo menos um problema.
“bbjaljdljaf.mzmv.zcxmvaklfjaldmzmcvzmcxvjakfja.zmvcmklajfmz.mvlzdfja”
Não adiantava, parecia grego, misturado com chinês avançado.
- Começa fazendo um diagrama, resolve por conjuntos.
Eu levei um baita susto. Sem graça pela situação e vermelha de vergonha, eu tentei me recompor:
- Fernando!
- Oi Aline, tudo bem?
- Oi, tudo. O que você está fazendo aqui?
- Eu estava te seguindo!
- Jura! Não pude me conter e abri um sorriso.
- Não! Estava brincando, eu vim com uns amigos no cinema. E apontou para uma mesa que devia ter uns quatro moleques.
Aiiiiiiiiiiiii Aline, que vergonha! Agora ele vai pensar que você está a fim dele. Burra, burra... Tentei disfarçar e meio sem graça acenei para os amigos dele.
- Bom eu só vim falar um oi. Vou indo, senão perco o início do filme – disse ele. A gente se vê na escola amanhã?
- Sim. As meninas chegaram logo em seguida e a cena foi meio embaraçosa. O Fernandinho saindo, eu vermelha feito um pimentão e para ajudar o caderno de matemática aberto. Nem preciso dizer que elas tinham assunto para o resto da semana!
Elas apenas riram. Talvez nem tivessem percebido a situação. Ou então eu estava exagerando. Sei lá. Quando fechava o caderno, olhei novamente para o exercício e pensei no que o Fernandinho havia dito. Por um instante, o problema me parecia mais claro:
“Numa pesquisa com jovens, foram feitas as seguintes perguntas, para que respondessem sim ou não: Gosta de música? Gosta de Esportes? Responderam sim à primeira pergunta 90 jovens; 70 responderam sim à segunda; 25 responderam sim a ambas; e 40 responderam não. Quantos jovens foram entrevistados?”
Hum... fazendo um diagrama, posso resolver por conjuntos...
- Aliiiiiiiiiiiiiiiiiiine – a Bruna vai acabar me deixando surda - Você não vai comer?
Foi o suficiente para que eu fechasse o caderno e guardasse tudo na mochila. Depois daquele berro, minhas ideias começaram a se misturar. Por um momento eu lembrei que não sabia quase nada do Fernandinho! Será que ele gosta de esporte? Que tipo de música será que ele ouve? Acorda Aline, acorda... vai buscar alguma coisa para comer antes que a Bruna parta para a agressão física. Ela já está te olhando com a cara que o leão de Madagascar olhava para zebra... uahswuashw
Passamos a tarde olhando vitrines de lojas de sapatos, sem comprar coisa alguma. A Camila até que ensaiou comprar uma sandália, mas a única coisa que conseguiu foi irritar o vendedor que, sem exagero, separou uns quinze pares diferentes... nenhum do agrado dela! Lá pelas tantas, enquanto elas ajudavam a Edilaine a escolher um caderno novo (pela capa!) eu procurava uma saída para minha prova de matemática, que cedo ou tarde aconteceria. A primeira prova do ano tinha sido um desastre e minhas esperanças de recuperar minha nota estavam se esvaindo. Das opções que me restavam, a que mais me agradava envolvia pedir ajuda ao Fernandinho.
Enquanto observava tudo, percebi que a Dafne estava meio inquieta. Não demorou muito para que ela despistasse as meninas e viesse em minha direção.
- Precisamos fazer alguma coisa – ela disse.
Sem entender nada, respondi com uma cara de ué!?!?!
- A Bruna está muito mal, por mais que ela tente enganar, a qualquer momento ela vai desmoronar a chorar. Se não fizer pior.
Ela tinha razão. E eu já havia percebido isso. Mas fazer o que? Já estava difícil resolver os meus problemas. Por outro lado, não podia abandonar uma amiga num momento desses.
- Vou falar para ela dormir em casa hoje – eu disse. Quem sabe podemos conversar sozinhas e...
- Vamos gente! Fomos interrompidas pela Camila, que nos chamava para irmos embora. Já passava das seis horas da tarde e, logo anoiteceria. A caminhada para casa seria longa. Como combinado, a Dafne afastou as meninas e eu pude falar a sós com a Bruna. Fiz o convite e ela recusou ir dormir lá em casa hoje. Sem maiores detalhes, disse ter algumas coisas pendentes para resolver quando chegasse em casa.
Cheguei em casa pouco depois das 7 horas. O clima estava meio carregado. Minha mãe recebera uma ligação da escola para tratar sobre minhas notas, que por sinal não estavam muito boas. Meu pai segurou as pontas e eu acabei indo para o meu quarto sem jantar. Deitada, olhando para o teto, lembrei-me do Fernandinho e da prova. Mais um dia havia se passado sem que eu resolvesse qualquer um dos problemas.
Naquela noite tomei uma decisão. As coisas tinham que mudar. Só não sabia ao certo o que fazer. Ainda meio sonolenta, ouvi o telefone tocar e antes de adormecer lembro-me de ter ouvido meu pai dizendo o nome da Bruna.

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